sexta-feira, 18 de março de 2011

Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens? If any animal inspires tenderness, what happened then with men?








"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte e do tédio
Que vai de mim para o outro."
( Mário de Sá)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Calar-se, shut up


Sem Título, Untitled


Um depois do outro, One after the other







Esquecer

Ao nascer somos pinho-de-riga puro. Mas logo começam as demãos de tinta. Cada um pinta sobre nós a cor de sua preferência. Todos são pintores: pais, avós, professores, padres, pastores. Até que o nosso corpo desaparece. Claro, não é com tinta e pincel que eles nos pintam. O pincel é a fala. A tinta são as palavras. Falam, as palavras grudam no corpo, entram na carne. Ao final o nosso corpo está coberto de tatuagens da cabeça aos pés. Educados. Quem somos? “O intervalo entre o nosso desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de nós“, responde Álvaro de Campos. Contra isso lutava Alberto Caeiro: Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, mas um animal humano que a natureza produziu. Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender... Barthes se descobriu atacado pela mesma doença que afligira Caeiro. Através dos anos seu corpo foi coberto por saberes que se sedimentaram sobre sua pele. Agora ele estava enterrado, esquecido de si mesmo. Só havia um caminho: desaprender tudo. “Empreendo, pois“, ele diz, “deixar-me levar pela força de toda forca viva: o esquecimento“. Esquecer é raspar a tinta. A fim de se lembrar do esquecido. E o que ele viu, depois de terminada a raspagem, encantou-o: lá estava a sua alma, o jeito original de saber — “sabedoria“. Diz o Tao Te Ching que os saberes podem ser somados (como as camadas de tinta). Mas sabedoria só se obtém por subtração, por raspagem e esquecimento. (...)"
Rubem Alves